As origens do Superman (sem ficção)

Jerry Siegel, Joe Shuster e o Super-Homem

Por Waldomiro Vergueiro  |  26 de Junho de 2006
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Alguns super-heróis têm o poder de prever o futuro. Mas mesmo eles geralmente o fazem com grandes cuidados, pois sabem que estarão identificando apenas uma das muitas possibilidades de desencadeamento de fatos que poderia ocorrer. Pequenas coisas poderiam acontecer e mudar substancialmente a previsão realizada, levando o vidente ao descrédito total. Não se pode fugir disso. No entanto, a tentação de adivinhar o que nos reserva o futuro é uma constante no pensamento humano, que avidamente perscruta o passado e o presente em busca de indícios para o que virá. Na maioria das vezes, em vão.

Se, no início da década de 1930, dois jovens judeus residentes no estado de Ohio tivessem o poder de prever o futuro, sua história pessoal teria sido muito diferente. Muito provavelmente, ambos teriam feito fortuna e transformado pessoalmente a face do sistema midiático de entretenimento em seu país e talvez no resto do mundo. Não tendo esse poder, ainda que exercendo influência considerável nos rumos de um segmento significativo da produção midiática, puderam apenas se beneficiar de elementos marginais desse sistema. Ingrata sina a deles.

Estamos nos referindo a dois indivíduos com os quais os fãs de histórias em quadrinhos certamente já estão muito familiarizados, embora apenas uma porcentagem muito pequena conheça em detalhes a história de suas vidas: Jerry (Jerome) Siegel Joe (Joseph) Shuster. Não sabem, por exemplo, que ambos nasceram em 1914, que Jerry, filho de judeus imigrados da Lituânia, realmente é originário do estado de Ohio, passando sua infância e juventude na cidade de Cleveland, e que Joe era em realidade canadense, natural da cidade de Toronto, também ele nascido no interior de uma família judia, mas cujos pais haviam imigrado da Holanda e Ucrânia, respectivamente. E pouco certamente conhecem sobre os detalhes da ascensão e queda desses dois artistas, obliterados que foram elas pelo brilho estonteante de sua maior criação nos quadrinhos, o Super-Homem.

Dois jovens se encontram…

Trata-se de uma história no mínimo rocambolesca. Ou, sob outros aspectos, constituiu-se também em uma tragédia, embora a ela não tenham faltado toques de ousadia, de glamour e mesmo momentos mais afortunados. A ousadia esteve presente na própria gênese do primeiro super-herói, uma idéia de vanguarda numa indústria que recém-engatinhava e dava seus primeiros (ainda titubeantes) passos, a das revistas de histórias em quadrinhos. Glamour e fortuna estiveram certamente ligados aos dez anos de glória que ambos tiveram entre a primeira publicação de seu personagem e o momento em que perderam os direitos sobre ele para a Detective Comics, Inc., em 1948. E a tragédia, por fim, pairou sobre aquele período de suas vidas em que, desprovidos dos rendimentos que o reconhecimento de seus direitos autorais sobre um dos maiores ícones da indústria de entretenimento mundial poderia lhes proporcionar, tiveram que amargar ocupações menores e bem abaixo de seus reais méritos intelectuais para garantir o sustento próprio e de suas famílias; e esteve presente, também, quando, de 1952 a 1958, tiveram que engolir em silêncio a humilhação de ter seus nomes alijados dos créditos do seriado televisivo e de todos os produtos do herói, um inegável sucesso de público e vendas.

Os dois autores se encontraram no início dos anos 1930, na Glenville High School, de Cleveland, onde ambos estudavam. Ávidos leitores das chamadas pulps– revistas com histórias sensacionalistas, impressas em papel barato (feito de polpa de madeira), normalmente vendidas a preços bastante acessíveis -, eles compartilharam o entusiasmo da leitura dos produtos dessa indústria, trocando idéias e sonhando em firmar seus nomes nesse ambiente. Juntos trabalharam no jornal da escola, o Glenville Torch, para o qual Joe desenhava charges humorísticas e Jerry concebia uma série de contos, muitos deles ilustrados pelo colega canadense. Uma dessas narrativas curtas trazia como protagonista Goober the Mighty, uma paródia deTarzan, evidenciando já a propensão dos dois para elaborar histórias protagonizadas por seres atléticos e poderosos.

Juntos, também, os dois jovens idealistas conceberam e publicaram os cinco únicos números do fanzine Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization, distribuído em outubro de 1932, um dos primeiros de seu país; feita em mimeógrafo, contando com Jerry como editor e Joe como editor de arte, a publicação era distribuída aos interessados por correio, sendo o berço, em seu terceiro número, publicado em janeiro de 1933, da história The Reign of the Superman, em que um pobre destituído é transformado em um ser com poderes extraordinários, tornando-se capaz de manipular a mente de seus semelhantes, o que ele utiliza em proveito próprio. Tratava-se já da primeira investida dos autores na idéia de um ser superpoderoso, que depois seria transmutado de vilão para herói e apresentado aos editores de quadrinhos da época.

O início nos quadrinhos

Ao encerrarem as atividades de seu fanzine, os dois jovens de Cleveland já buscavam outras plagas onde desenvolver suas atividades, encontrando na indústria dos quadrinhos um ambiente aparentemente fértil para isso. Já se havia iniciado, então, a época de ouro dos quadrinhos, em que vários personagens oriundos dospulps, como Tarzan e Buck Rogers, recheavam as páginas dos jornais, partilhando espaço com outros criados especialmente para os quadrinhos, como Dick Tracy Capitão César. Faziam grande sucesso, povoando o imaginário coletivo dos leitores da época e ajudando a diminuir as agruras do período da Grande Depressão, além de, também, possibilitar ótimas compensações econômicas aos artistas que os haviam criado.

As primeiras revistas de histórias em quadrinhos haviam aparecido em 1933, mas se constituíam apenas em republicações de histórias anteriormente publicadas nos jornais. No entanto, algumas publicações que lhes seguiram já introduziam personagens inéditos, e, assim, Jerry e Joe , com o entusiasmo próprio de dois jovens que ainda estavam para entrar na casa dos vinte anos, imaginaram que poderiam nelas encontrar o seu espaço. Apresentaram à Consolidated Book Publishers, de Chicago, sua primeira tentativa de produto quadrinhístico para a imprensa comercial. Tratava-se de uma revista completa, com capa e tudo, ostentando o pretensioso título de The Superman e trazendo como elementos de propaganda a frase “O Mais Surpreendente Personagem de Ficção Científica de Todos os Tempos”. Talvez até fosse, mas, infelizmente, o personagem não chegou a ser publicado devido à editora ter encerrado sua atividade na área de histórias em quadrinhos, o que levou Joe Shuster a raivosamente queimar cada página da história, da qual só restou uma chamuscada capa, em que um personagem musculoso se atira sobre um meliante que aponta uma arma para um cidadão amarrado e amordaçado, enquanto ao fundo podem ser divisadas as silhuetas dos arranha-céus de uma grande cidade e um trem em movimento sobre um viaduto.

Passada essa primeira tentativa, a idéia de uma história em quadrinhos protagonizada por um ser superpoderoso seria abandonada por um tempo, mas não totalmente descartada. Pelo contrário, pouco mais de um ano havia passado e Jerry, o sempre laborioso escritor da dupla, propôs ao colega o reaproveitamento do personagem em uma tira diária a ser oferecida para os Syndicates norte-americanos. Joe imediatamente se contagiou pelo entusiasmo do amigo e iniciou de maneira quase febril a elaboração das primeiras aventuras daquele que viria posteriormente a se tornar um dos mais importantes ícones dos quadrinhos norte-americanos. Em pouco tempo eles tinham pronta para publicação uma boa quantidade de tiras.

O resultado pareceu bastante satisfatório aos olhos dos dois jovens autores e ele passaram a enviar o trabalho aos diversos editores, colecionando recusa após recusa. Em 1934 encaminharam sua obra para a revista Famous Funnies, que lhes devolveu o pacote sem sequer ser aberto. Nesse mesmo ano encetaram negociações com a editoraSuper Magazine, mas não chegaram a um acordo sobre a publicação. Em 1936, ofereceram o personagem para a Dell Comics, que também o rejeitou. Em 1937 foi a vez de Tip Top Comics proceder da mesma forma, alegando que o personagem ainda não estava suficientemente maduro para publicação. No entanto, ao final deste mesmo ano, a sorte do ainda não denominado Homem de Aço começou a mudar: M. C. Gaines, que havia rejeitado a criação dos dois jovens quando trabalhava para a Dell Comics, indicou Superman para um novo título que estava sendo produzido para a editora National.

A primeira publicação do herói

Nessa época, Jerry Siegel e Joe Shuster já não eram mais propriamente neófitos no ramo das revistas em quadrinhos ou completamente desconhecidos para a National Allied Publishing. Desde outubro de 1935 eles vinham colaborando regularmente para algumas publicações da casa, tendo iniciado sua atuação profissional na editora por um personagem aventureiro chamado Henri Duval of France, Famed Soldier of Fortune, publicado na revista New Fun: The Big Comic Magazine #6; nesse mesmo número da revista, aliás, havia também sido publicada uma história de outro personagem da dupla, mais criativo e duradouro que o primeiro, Doctor Occult, the Ghost Detective. Estes personagens iniciais foram logo seguidos por outros em diversos títulos da editora, como Federal Men, em New Comics, e Slam Bradley, presente já no primeiro número da revista Detective Comics, publicado em março de 1937. Em todos eles, como demonstraram diversos estudiosos, podem ser encontrados resquícios do Superman, como se os dois jovens quadrinhistas estivessem ensaiando em seus personagens menores os feitos e características daquele que consideravam, com justiça, sua maior criação.

O Super-Homem foi efetivamente aceito para inaugurar a nova revista da editora, então já denominada Detective Comics, Inc., que recebeu o título de Action Comics. Lançada em junho de 1938, a revista tinha na capa o personagem esmagando um veículo contra uma pedra, enquanto seus eventuais ocupantes, pretensamente criminosos, se afastavam às pressas do local. Estava aberto o caminho para a fama.

O personagem foi um sucesso imediato. Em pouco tempo os editores perceberam que os leitores não estavam buscando nas bancas o título Action Comics, mas, muito mais, a revista que continha as histórias do Super-Homem. Assim, aquele que para os editores tinha se constituído em apenas mais uma experiência editorial, tornou-se rapidamente a ponta de lança da empresa, atingindo cerca de 500 mil exemplares de tiragem em pouco mais de dez meses, uma cifra que iria dobrar nos anos seguintes.

Um novo gênero

Parecem ser bastante variadas as razões para o sucesso do Super-Homem. Por um lado, ele parece ter sido o personagem certo para o momento certo, respondendo à necessidade de auto-afirmação do povo norte-americano exatamente no instante em que ele se recuperava dos efeitos da Grande Depressão e iniciava uma rota de ascensão para se tornar a maior potência econômica do planeta. Por outro lado, ao beber, talvez inadvertidamente, de várias tradições narrativas que faziam parte do inconsciente coletivo dos leitores de quadrinhos, os dois autores criavam as condições para que sua criação fosse recebida de forma entusiástica por eles. De fato, na gênese do primeiro super-herói existem inegáveis elementos de fundo bíblico, como a vinda à Terra do infante sobrevivente do planeta Krypton em um foguete, em que havia sido introduzido por seus pais na tentativa de salvá-lo de iminente cataclisma, sendo facilmente equiparada à colocação de Moisés em um cesto e seu envio pelo rio, visando poupá-lo do afogamento decretado pelo Faraó. Também a idéia da dupla identidade representava o aproveitamento de um tema já familiar aos leitores dos pulps, uma vez que heróis como o Zorro O Sombra (The Shadow) já se utilizavam desse expediente em suas aventuras; no entanto, diferentemente desses dois casos, em que a outra identidade do herói é representada como um indivíduo sofisticado e pertencente à aristocracia, o alter-ego de Super-Homem não passa de um humilde jornalista, um pouco míope, introvertido, misógino e sem qualquer traço de valentia. Por fim, o terceiro ingrediente que parece ter contribuído para segurar o interesse dos leitores foi a ambigüidade da presença e relacionamento do protagonista da série com uma das personagens secundárias, a jornalista Lois Lane, colega de trabalho de seu alter-egoClark Kent no jornal Planeta Diário, que tem para com ele uma atitude no mínimo contraditória: ao mesmo tempo que idolatra o herói, despreza o colega, ignorando os talentos que este traz escondidos.

No entanto, por outro lado, talvez o sucesso do último filho do planeta Krypton esteja mais umbilicalmente ligado à proposição de um novo gênero narrativo, que iria praticamente caracterizar as revistas de histórias em quadrinhos dali em diante e se tornar quase um sinônimo desse veículo de comunicação, o dos super-heróis. De fato, já em sua primeira história os autores estabelecem todos os clichês do gênero, criando o molde a partir do qual todos aqueles que o seguiram seriam formados, englobando alguns dos elementos mencionados no parágrafo anterior. Como descreve minuciosamente Richard Reynolds, em seu livro Super-Heroes: a modern mythology (p. 12-16), as características que iriam prevalecer, durante muitos anos, na grande maioria dos super-heróis dos quadrinhos, foram estabelecidas nas 13 primeiras páginas dessa história, como segue:

•  A perda dos pais: o super-herói é alguém que está fora da sociedade, ou seja, ele raramente atinge a maturidade a partir de um relacionamento normal com seus pais;

•  O homem-deus: quando considerados seus atributos extraordinários, uma boa parte dos super-heróis dos quadrinhos são como que deuses descidos à terra;

•  A justiça: a devoção do herói à justiça está acima de sua devoção à lei;

•  O normal e o superpoderoso: a natureza extraordinária do herói é contrastada com a normalidade que existe ao seu redor;

•  A identidade secreta: esta natureza extraordinária será também contrastada com a natureza mundana de seu alter-ego, cujas ações são governadas por vários tabus;

•  Superpoderes e política: apesar de se situarem, em última instância, acima dos ditames da lei, os super-heróis são capazes de considerável patriotismo e lealdade ao estado; e

•  A ciência como magia: as histórias utilizam a ciência e a magia de forma indiscriminada, para criar um sentido de deslumbramento no leitor.

A partir dessas quase, digamos assim, “especificações” para o gênero, bem como do enorme sucesso atingido por seu molde-mestre, pode-se afirmar que se iniciou uma nova era nas revistas em quadrinhos, com o predomínio, durante os anos seguintes, de uma extensa e variada miríade de seres superpoderosos. Sendo os propositores dessa nova ordem narrativa, Jerry Siegel Joe Shuster foram os primeiros profissionais diretamente beneficiados por ela, atingindo rapidamente a fama e o prestígio com que haviam sonhado desde suas empreitadas juvenis.

O caminho do sucesso

Em pouco tempo, o também chamado Homem do Amanhã seguiu, sempre intrépido – com o perdão do trocadilho… -, para o alto e avante:

•  Em 1939 foi lançado em revista própria, sem que suas aventuras em Action Comics fossem por isso interrompidas, e conseguiu finalmente obter seu espaço nos jornais, sendo lançado em tiras diárias em vários órgãos jornalísticos norte-americanos;

•  Nesse mesmo ano teve os primeiros produtos com seu nome ou imagem comercializados no país, numa variedade que ia de brinquedos especialmente criados a partir do herói a anéis e camisetas com sua efígie, uma iniciativa que apenas cresceu nos anos que imediatamente se seguiram;

•  Em 1940, o Último Filho de Krypton experimentou enorme ampliação de sua popularidade por seu licenciamento para uma série radiofônica, The Adventures of Superman, que durou até 1951 e consagrou o famoso slogan de abertura, até hoje relembrado com carinho por muitos fãs: “Faster than a speeding bullet! More powerful than a locomotive! Able to leap up tall buildings in a single bound! Look, up in the sky! It´s a bird! It´s a plane! It´s Superman!“;

•  Em 1941 foi transposto para os desenhos animados, em produção realizada pelaParamount Pictures e pelos estúdios dos Irmãos Fleischer, além de também começar a surgir regularmente em histórias próprias na revista World´s Finest Comics, dividindo as páginas com Batman, criado por Bob Kane Bill Finger para a revista Detective Comics um ano depois do aparecimento de Super-Homem, e, esporadicamente, no título All Star Comics, publicado pela editora All American Comics;

•  Em 1945, na revista More Fun Comics, ocorreu o aparecimento do primeiro herói diretamente derivado do Homem de Aço, o jovem Superboy, inicialmente retratado como criança e logo ascendendo à adolescência; com o sucesso do personagem, ele passou a ser mais explorado pela editora, ganhando uma revista própria em 1949;

•  Em 1945 também é publicado o romance The adventures of Superman, de autoria de George Lowther, roteirista da série radiofônica do personagem.

O afastamento dos autores originais

No entanto, apesar do sucesso do Super-Homem, nem tudo foram rosas na vida de seus autores, como explica Mike Benton no livro Superhero comics of the golden age: the illustrated history:

Super-Homem ficou famoso, mas Siegel e Shuster não ficaram ricos. Quando eles venderam a primeira história de Super-Homem, em 1938, para a Detective Comics Inc. por 130 dólares, eles também venderam todos os seus direitos em relação ao personagem. Os editores disseram a Siegel e Shuster que esta era a maneira “usual” e “comercial de fazer as coisas.” Na indústria de revistas de quadrinhos daquela época, a prática comum era realmente comprar todos os direitos junto com o trabalho artístico.

Apesar de terem feito um negócio que depois se revelou desfavorável a eles quando assinaram o contrato para a publicação de seu personagem, aos autores de Supermannão faltou trabalho naqueles tempos iniciais. Como centralizavam os quadrinhos sobre o personagem, tiveram que contratar assistentes para ajudá-los na produção de histórias tanto para os dois títulos regulares como para a tira sindicalizada, criando assim uma equipe de artistas que depois ajudou a dar continuidade ao mito desse herói.

No entanto, insatisfeitos com a parcela que lhes cabia do latifúndio proporcionado pelos diversos produtos e aplicações mercadológicas proporcionadas por sua criação, em 1946 Jerry Siegel Joe Shuster resolveram questionar juridicamente a editora a respeito disso, entrando em com uma demanda judicial contra ela, em que exigiam seus direitos; infelizmente para eles, segundo menciona Les Daniels no livroSuperman: the complete story, a disputa foi vencida dois anos depois pela empresa, com a justiça norte-americana decidindo que ambos não tinham “qualquer direito de propriedade sobre o Super-Homem, uma vez que tinham aberto mão de todos os direitos em favor do editor no início da carreira do Super-Homem e de suas próprias carreiras dez anos antes”. Assim, ainda que recebendo 100 mil dólares por assinarem um acordo em que desistiam de no futuro reclamar seus direitos sobre Super-HomemSuperboy, os dois autores foram rapidamente excluídos de cena, sendo definitivamente afastados do corpo criativo da DC Comics.

O reconhecimento dos direitos

Nos anos seguintes, Jerry continuou a atuar como diretor artístico em outra editora de quadrinhos, a Ziff Comics, retornando ao final da década à DC Comics, quando escreveu novas histórias para o Super-Homem, mas sem assiná-las. Nos anos 1960 escreveu histórias para a Marvel ComicsArchie ComicsCharlton Comics,Western Publishing e a italiana Mondadori Editore. Durante esse período, tentaria ainda retomar os direitos do personagem, mais uma vez sem sucesso. Joe, por sua vez, afastou-se das histórias em quadrinhos, dedicando-se a outras atividades.

Afastados de sua criação máxima, tendo seus nomes simplesmente obliterados dos créditos das revistas, a história desses dois visionários dos quadrinhos terminaria de maneira lúgubre não fosse a decisão de Jerry de iniciar uma campanha de relações públicas em 1975, em que denunciou o tratamento que ambos haviam recebido da DC Comics. Aparentemente preocupada com a repercussão dos fatos e o impacto que eles teriam sobre o já planejado lançamento do longa metragem do Super-Homem – concretizado em 1978 e estrelado por Christopher Reeve Marlon Brando -, aWarner Comics decidiu conceder a cada um dos autores uma pensão vitalícia de 35 mil dólares anuais, além de se comprometer a reconhecer formalmente seus direitos autorais em todas as publicações e produtos relacionados ao Super-Homem, que a partir de então sempre ostentam a informação “Superman, criado por Jerry Siegel e Joe Shuster“.

De uma certa forma, era feita justiça aos autores em termos econômicos, ainda que o pagamento concedido tenha representado muito pouco do que a potência editorial doscomic-book norte-americanos realmente lucrou com a criação do primeiro super-herói dos quadrinhos. Mas, mais que isso, realizava-se também a justiça em termos morais, pois a partir daí os veteranos autores puderam gozar do respeito e admiração de seus pares, para não falar dos muitos fãs a que seu personagem havia dado origem.

Jerry Siegel e Joe Shuster faleceram durante a década de 1990, com poucos anos de diferença entre eles. Em 2005, Jerry recebeu postumamente o Bill Finger Award for Excellence in Comic Book Writing, enquanto Joe, nesse mesmo ano, teve seu nome introduzido no Canadian Comic Book Creator Hall of Fame, além batizar o Joe Shuster Awards for Canadian Comic Book Creators, concedido anualmente aos autores canadenses que se destacam na criação quadrinhística.

Leituras recomendadas

  • BEATTY, Scott. The ultimate guide to the Man of Steel. London : Dorling Kindersley, 2002.
  • BENTON, Mike. Superhero comics of the golden agethe illustrated history. Dallas: Taylor Publishing Company, 1992.
  • DANIELS, Les. Superman: the complete history. San Francisco: Chronicle Books, 2004.
  • JONES, Gerad. Men of tomorrow: geeks, gangsters and the birth of the comic book. New York: Basic Books, 2004.
  • OF SUPERMAN and kids with dreams: a rare interview with the creators of Superman Jerry Siegel & Joe Shuster. Behind the mask [site]. Disponível em:http://superman.ws/seventy/interview/?part=0. Acessado em: 17 maio 2006.

Fonte: Omelete

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